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El Niño e os desafios da gestão de riscos nas concessões rodoviárias.

18 de junho de 2026

As discussões sobre a possível formação de um novo e intenso episódio de El Niño voltaram a acender um importante sinal de alerta para o setor de infraestrutura. Em abril de 2026, uma nota técnica do Cemaden apontou mais de 80% de probabilidade de ocorrência do fenômeno entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, com potencial para ampliar a ocorrência de chuvas intensas, enchentes e deslizamentos, especialmente na Região Sul do Brasil.

O tema reforça uma percepção cada vez mais presente no setor: eventos climáticos extremos deixaram de ser considerados exceções e passaram a integrar de forma permanente o mapa de riscos das concessões rodoviárias. Em um cenário marcado por maior instabilidade climática, a resiliência operacional torna-se um elemento estratégico para a sustentabilidade dos ativos de infraestrutura.

Os alertas acompanham uma tendência observada em escala global. De acordo com o relatório State of the Global Climate 2024, publicado pela Organização Meteorológica Mundial, 2024 foi o ano mais quente já registrado, com recordes de temperatura dos oceanos e intensificação de eventos extremos, gerando impactos econômicos e sociais relevantes em diversas regiões do planeta.

No Brasil, os efeitos dessa nova realidade já são evidentes. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 demonstraram como eventos climáticos severos podem comprometer simultaneamente a mobilidade, a logística, a infraestrutura e a continuidade das operações. Estudos recentes associam a intensidade das precipitações observadas naquele período à combinação entre variabilidade climática natural, influência do El Niño e efeitos relacionados ao aquecimento global.

Eventos extremos passam a moldar a operação

Para as concessionárias rodoviárias, os impactos vão muito além dos danos físicos à infraestrutura. Alagamentos, erosões, deslizamentos e interrupções de tráfego afetam diretamente a disponibilidade das rodovias, elevam custos de manutenção, pressionam cronogramas de investimentos e ampliam a exposição financeira e securitária das operações.

Além disso, a crescente volatilidade climática vem transformando a forma como os riscos são avaliados e gerenciados. Cenários antes classificados como extraordinários passam a exigir monitoramento contínuo, revisões frequentes de exposição e maior integração entre áreas como engenharia, operações, continuidade de negócios, gestão de riscos e seguros.

Da reação à antecipação: a evolução da gestão de riscos

Nesse contexto, a gestão integrada de riscos assume um papel ainda mais relevante. A capacidade de identificar vulnerabilidades, antecipar cenários adversos e estruturar respostas ágeis torna-se fundamental diante de eventos com potencial crescente de recorrência e severidade.

Na prática, isso envolve o fortalecimento de ferramentas de monitoramento hidrometeorológico, análises preditivas, modelagem de cenários climáticos, avaliações de vulnerabilidades críticas e a atualização constante de planos de contingência e continuidade operacional. Em um ambiente mais exposto a eventos extremos, a rapidez na tomada de decisão e a capacidade de adaptação passam a influenciar diretamente a mitigação de impactos operacionais e financeiros.

Paralelamente, o mercado segurador também passa por transformações. O aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos exige análises de exposição mais refinadas, modelos de perdas mais sofisticados e programas de seguros cada vez mais alinhados às características operacionais e aos riscos específicos das concessões.

Embora a transferência de riscos continue desempenhando papel fundamental, ela passa a ser complementada por estratégias cada vez mais robustas de prevenção, adaptação e fortalecimento da resiliência. Mais do que reagir aos eventos extremos, o desafio das concessões rodoviárias está em incorporar a adaptação climática como parte integrante da gestão do negócio.

Em um cenário de crescente imprevisibilidade, antecipação, integração e inteligência de riscos tendem a se consolidar como pilares essenciais para garantir a sustentabilidade operacional e financeira da infraestrutura brasileira.
Fonte: https://setcesp.org.br/noticias/