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Dólar em queda ou petróleo em alta: o que encarece e o que pode baratear

30 de abril de 2026

O resultado dessa combinação tende a pressionar a inflação — mas será que algum setor consegue escapar em meio ao choque de oferta das commodities?

Há anos, os consumidores brasileiros já se acostumaram com aumentos frequentes nos preços. A sensação de que “tudo está mais caro” virou rotina. No entanto, o cenário pode se intensificar nos próximos meses. A economia brasileira vive hoje um contraste curioso: de um lado, o real se valoriza frente ao dólar; de outro, o preço do petróleo dispara no mercado internacional. Embora uma moeda mais forte normalmente ajude a conter a inflação, a alta da commodity acaba puxando os custos para cima. No fim, esses efeitos não se anulam — apenas impactam o bolso por caminhos diferentes.

Especialistas apontam que o saldo dessa equação é inflacionário. Ou seja, a tendência é de aceleração nos preços. E esse movimento já começou a ser percebido pelos consumidores recentemente.

Em 2026, o real figura entre as moedas que mais se valorizaram globalmente, acumulando alta superior a 9% frente ao dólar até o fim de abril. Em teoria, isso deveria aliviar os preços de produtos importados. Porém, ao mesmo tempo, o petróleo subiu rapidamente após o agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irã, gerando um choque de oferta. O barril, que girava em torno de US$ 70, saltou para cerca de US$ 120 em poucas semanas.

Esse impacto já apareceu no IPCA de março, que registrou alta de 0,88%, acima das expectativas. O principal peso veio do setor de transportes, impulsionado pelo aumento da gasolina (4,59%) e do diesel (13,90%).

O problema é que os efeitos do câmbio e do petróleo não se distribuem de forma uniforme pela economia. Enquanto a valorização do real pode reduzir custos de produtos com insumos importados, como eletrônicos e alimentos industrializados, esse repasse costuma ser lento. Já os aumentos — especialmente ligados ao petróleo — chegam ao consumidor com muito mais rapidez.

Esse descompasso ajuda a explicar a percepção constante de encarecimento: no Brasil, os preços sobem rápido, mas caem devagar. E mesmo que o cenário externo melhore, a inflação já ganha força — e dificilmente retrocede.

No caso dos combustíveis, o impacto é imediato. Gasolina e diesel já acumulam altas relevantes, ainda que os preços internos não reflitam totalmente a disparada internacional. Medidas como a redução de tributos ajudam, mas não resolvem completamente o problema.

Como o transporte no Brasil depende fortemente do modal rodoviário, o aumento do diesel encarece o frete e se espalha por toda a cadeia produtiva. Isso afeta diretamente os alimentos, que já registram altas significativas e tendem a continuar pressionados, especialmente com o encarecimento de fertilizantes e custos logísticos.

Outros setores também devem sentir os efeitos com atraso. Passagens aéreas, por exemplo, ainda não refletiram totalmente a alta do combustível, mas devem subir. Já a energia elétrica pode ficar mais cara caso o uso de termelétricas aumente, o que depende do nível dos reservatórios.

Por outro lado, itens como eletrônicos podem até ficar mais baratos com o dólar mais baixo, mas esse efeito é limitado e demora a aparecer, devido a estoques antigos e custos acumulados.

No geral, o impacto mais amplo vem do frete e dos serviços. O transporte rodoviário segue fortemente atrelado ao diesel, enquanto o setor de serviços depende mais de custos internos, como mão de obra — o que reduz o efeito positivo do câmbio.

Assim, mesmo com alguns possíveis alívios pontuais, o cenário geral ainda indica pressão inflacionária nos próximos meses.

Fonte: https://setcesp.org.br/noticias/